Mães do Instituto Gabi se mobilizam para reverter o fim do atendimento que beneficia mais de 60 pessoas com deficiência
08/05/2018 02:08 em Cidades

Felipe, 23 anos, com a mãe Fernanda  Foto - Divulgação

Ivone Santos e Fernanda Lima são mães de dois jovens com deficiência. Elas sabem que não será nada fácil encontrar um novo local que acolha seus filhos de 21 e 23 anos, respectivamente. E, desde então, não medem esforços para reverter a situação que afetou o Instituto Gabi, inclusive, atuando na esfera política – algo que nunca imaginaram fazer

No Instituto Gabi, o Dia das Mães deste ano tem um ingrediente muito especial: a garra e a força de guerreiras que cuidam dos seus filhos especiais e vão à luta para que outras famílias com pessoas com deficiência tenham dignidade e seus direitos reconhecidos. 

Desde 2003, o Instituto Gabi – criado em 2001, a fim de atender e apoiar pessoas com deficiência e suas famílias – mantém parceria com a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADs) da Prefeitura Municipal de São Paulo. Durante 15 anos, mobilizou pessoas físicas e empresas para manter o Núcleo de Apoio à Inclusão Social da Pessoa com Deficiência (NAISPcD), localizado na Vila Santa Catarina, zona sul de São Paulo e oferecer atendimento diário de qualidade a mais de 60 pessoas com deficiência e suas famílias. “Ao longo deste período, oferecemos dezenas de atividades que ampliaram e qualificaram o serviço: educação física, fisioterapia, fonoaudiologia, musicoterapia, terapia ocupacional, oficina de arte, capoeira e circo, entre outras. Mas hoje os recursos captados não cobrem o déficit do convênio”, declara o fundador e presidente do Instituto Gabi, Francisco Sogari.

No dia 30 de abril, a parceria chegou ao fim e o Núcleo encerrou suas atividades neste espaço. As famílias, convictas de que não será nada fácil encontrar atendimento de qualidade semelhante – especialmente para os jovens adultos – começaram a se mobilizar, com o apoio da família fundadora, Barreto Sogari “Nosso trabalho segue em nossa sede própria, que está em fase final de reformas. Mas lá, será impossível manter o atendimento nos mesmos moldes por falta de espaço e de recursos”, explica. Algumas parcerias estão em fase de implementação para oferecer uma nova forma de apoio, mas a famílias precisam de mais, o que é compreensível”, reconhece Sogari.

Duas mães em especial, Ivone Santos e Fernanda Lima, encabeçaram um movimento que vem trabalhando com afinco para reverter a situação. Elas vêm atuando junto ao ministério público, inclusive na esfera política. Com o apoio da deputada federal Luiza Erundina – que conhece o Instituto Gabi desde a fundação - conseguiram um encontro com o Chefe de Gabinete da Prefeitura de São Paulo, Julio Semeghini. Diante do relato das mães e dos fundadores do Gabi, ele mobilizou seus secretários para encontrar saídas que garantissem a continuidade do serviço.

Com esta conquista, Felipe, Mateus e as mais de 60 pessoas com deficiência continuam com o atendimento no Instituto Gabi até 31 de outubro. “A mobilização trouxe uma sobrevida, mas com perdas significativas. Agora vamos cobrar o cumprimento da promessa do Secretário da Prefeitura de São Paulo. Em paralelo, vamos participar do novo edital para continuar por mais cinco anos”, explica Sogari.

“Felipe tem deficiência intelectual. É meu filho mais velho – tenho outros dois de 11 e 5 anos. Até chegar ao Gabi, peregrinei por terapeutas, escolas normais, inclusivas, especiais e outras instituições. Mas foi o Gabi que fez diferença na vida do Felipe e na minha também, especialmente pelo suporte que dão às famílias. Eu não sabia que não era só meu filho que precisava de um trabalho específico, mas eu e o restante da família também, afinal, compartilhar com quem vive a mesma situação que você é muito enriquecedor.

Felipe não foi só bem recebido, mas conseguiu fazer amizades e adorava este convívio diário. Ele adora passear, mas trocava qualquer programação para estar no Gabi. Após o encerramento das atividades, ele já teve uma crise, pois não consegue compreender porque não pode mais ir a um lugar que tanto gosta e que faz a diferença a vida dele. Há relatos semelhantes das demais famílias de atendidos.

Meu filho e todos os atendidos precisam do Instituto Gabi para viver com dignidade. Por isso, vou aonde é necessário para retomar os atendimentos. Hoje, eu sou a voz do Felipe - e das outras crianças e jovens que perderam este atendimento - junto ao poder público. A minha luta não cessará até que tudo volte a ser como era antes”.

Matheus, 21, com a mãe Ivone no Instituto Gabi    Foto - Divulgação

“Matheus é o caçula de cinco filhos. Ele tem Síndrome de Down. Estava no Gabi há oito anos, já havia passado por outras instituições e até pela escola normal. Quando chegou ao Gabi, era um menino muito retraído, não conversava. Era muito difícil trabalhar com ele. Ao longo destes oito anos, ele se transformou: é comunicativo e aprendeu a ir sozinho ao Gabi, assim como a voltar para casa. Adora uma festa e participava de tudo!

O fim do convênio me deixou muito abalada – estou assim até hoje. Onde vou colocar o meu filho? Ele é um adulto, não há instituição que o acolha. Não quero meu filho preso em casa, por isso, comecei esta luta para reverter a situação do Gabi.

Estou fazendo tudo o que está ao meu alcance junto a outras mães. E aonde vou, chego de cabeça erguida, porque o que peço é para o meu filho – e para os filhos de outras mães que, assim como eu, fazem de tudo por sua família.

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