Tear: tecer um espaço de voz feminina e atear fogo no debate
17/05/2018 09:40 em Lançamento

Projeto engloba canais de conteúdo, conexão de iniciativas de mulheres, educação empreendedora e, no futuro próximo, casa colaborativa

Fiar e tecer são antigas artes mágicas femininas e aparecem nos mitos de várias deusas - parcas gregas, as moiras romanas, as nórdicas - como expressão dos seus poderes proféticos, criativos, sustentadores dos ciclos lunares, das estações e dos destinos da vida humana. Tecer é um ato criativo e expansivo. Fios, cordas, redes e tecidos foram usados, na literatura e na vida, como símbolos da criação do mundo e da vida humana. As mulheres antigas o associavam com o nascimento da criança para um futuro desconhecido, um elo evidente entre tecer e parir, o cordão umbilical, o elo entre mãe e filho.

Com essa percepção nasce em São Paulo a Tear, uma rede de iniciativas femininas, concebida por quatro jovens amigas empreendedoras: as publicitárias Isabela Ventura e Marcella Mugnaini e as advogadas Rosely Cruz e Vanessa Louzada. O primeiro passo do projeto foi o lançamento da Rede Tear, uma plataforma de conteúdo e conexão de iniciativas e projetos de mulheres empreendedoras. Para criar o projeto, a Tear reuniu mulheres de diferentes perfis e territórios para rodadas de workshop. A escuta dos problemas trouxe muitos insights sobre os desafios e oportunidades no cenário feminino.

As publicitárias Marcella Mugnaini e Isabela Ventura e as advogadas Vanessa Louzada e Rosely Cruz sócias-fundadoras da Tear. Foto - Barbara Veiga.

A ideia da Tear é que as plataformas alimentem a discussão em torno de pautas do feminismo, conteúdos e artigos de mulheres compartilhando suas experiências. O projeto é amplo, transmídia, que aliará conteúdo voltado ao universo feminino, entrevistas, curadorias, canais sociais, programa de aceleração, recrutamento, educação e, no segundo semestre de 2018, um espaço físico, a Casa Tear, casa colaborativa para mulheres empreendedoras. Toda a equipe envolvida com o projeto até aqui é composta 100% por mulheres. O site teve design desenvolvido por Priscila Barbosa, ilustradora e designer do Coletivo Júpiter e programação é de Thula Kawasaki.

"Por meio da Tear, potencializaremos a força e a sensibilidade da mulher, oferecendo um lugar de crescimento profissional e pessoal, um ponto de encontro, um espaço de respiro" explica a publicitária Marcella Mugnaini.

No Brasil, as mulheres ganham menos do que os homens e são as maiores vítimas de assédio sexual no trabalho, normalmente cometido por homens em situação de hierarquia superior. Segundo o Instituto Ipsos, em pesquisa em 24 países, 41% das entrevistadas no Brasil confessaram ter medo de se expressar e de lutar pelos seus direitos. Esse percentual é bem maior do que a média global, que ficou em 26%. As mulheres do Brasil ficaram atrás apenas das indianas (as mais receosas em brigar pelos seus direitos, com 54%) e das turcas (47%). Motivos não faltam: aqui, a cada 11 segundos uma mulher é violentada; a cada 10 minutos, uma mulher é estuprada; e a cada 90 minutos uma mulher é assassinada, de acordo com o IPEA. Todas essas violências estão relacionadas à questão de gênero.

"Trabalhando com tecnologia, cansei de ser a única mulher nas reuniões, cansei de ouvir piadinhas sexistas e machistas de colegas de trabalho. Todas nós aqui passamos por essas situações constrangedoras e misóginas e resolvemos criar mecanismos para dar um basta nisso. A Tear nasceu para romper esse teto de vidro que impede a ascensão profissional feminina no Brasil", complementa Isabela Ventura, publicitária e uma das fundadoras da Tear.

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